Resenha – A lógica do Cisne Negro

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Excelente leitura. Ela muda a sua percepção de riscos. Quem acompanha o grupo do WhatsApp do Pracinha Investidor, sabe que o meu foco principal em relação aos investimentos em renda variável é o risco.

E o que é o risco?

É o efeito sobre a incerteza, ou seja, o desvio positivo ou negativo relacionado ao resultado esperado de um processo, projeto, ou qualquer outro objetivo.

Reparem que o risco não está intrinsicamente ligado à negatividade. O risco também engloba crescimentos, ganhos.

Ex: qual é a chance da empresa XXXX3 multiplicar o valor em 100 em 10 anos? Ou de estagnar? Ou até mesmo, falir?

Nassim, em diversas passagens do livro, define os eventos ocorridos no nosso cotidiano como advindos do Mediocristão e do Extremistão.

Resumidamente, no Mediocristão estão todos os eventos mensuráveis, previsíveis, que te dão segurança para se expor a eles, dados que eles sempre estão dentro de um intervalo conhecido. Ex: A chance do Itaú crescer em 10 anos é de 95%.

Já no Extremistão estão os eventos aleatórios, imprevisíveis, que fogem a qualquer tipo de previsão. Você tem de aceitá-los e ponto final. Ex: A chance do Itaú estagnar em 10 anos é de 4%. A de falir, é de 1%.

O autor nomeia todos os eventos imprevisíveis e com grande potencial de perda ou ganho de cisne negro. A ideia é simples. Evidenciou-se que todos os cisnes são brancos. Logo, os cisnes são brancos. Não há cisnes negros… até que surja um. É o conflito conhecido de ausência de evidência com evidência de ausência.

O autor também lida com desdém em relação à análise de retrovisor. Normalmente, quando ocorre um cisne negro, todos buscam descobrir os porquês, as causas do evento. Quando se poderia lidar com ele, e seguir adiante, o indivíduo prefere buscar explicações ao inexplicável. Ex: barragem de Brumadinho. Ela rompeu, houve o evento imprevisível. Após toda a destruição, mortes, descobriu-se que no meio da barragem havia um lago e que o sistema de drenagem da barragem estava debilitado. Na minha humilde opinião, o evento poderia ser previsível para os engenheiros que laudaram a barragem. Por algum motivo, poderiam ter feito uma vista grossa para a certificação, ou a represa de certa forma dispunha de condições para manter-se. A questão é que se ela não houvesse rompido, nunca saberíamos do lago na barragem, tampouco do sistema de drenagem ineficaz.

Sobre os cisnes negros, eles podem ser imprevisíveis a um indivíduo, porém previsível a outro. Nassim explica essa relação com esse gráfico simples:

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Sobre a história, é de um peru que a partir do 100º dia de vida, teve sua felicidade medida por uma equipe de analistas. A cada dia mais gordo e feliz, nunca imaginaria que teria esse triste fim numa mesa de ação de graças. Ele não, mas o dono dele sabia disso desde o nascimento dele.

NENHUMA ANÁLISE GRÁFICA ESTÁ PREPARADA PARA UM CISNE NEGRO!

Sobre previsão, o autor é ferrenho neste assunto. A segunda parte do livro inicia-se com a seguinte afirmação: “nós simplesmente não podemos prever”.

Trecho extraído do livro:

“Como muitas variáveis biológicas, a expectativa de vida é do Mediocristão, ou seja, está sujeita a uma aleatoriedade moderada — não é escalável, pois quanto mais envelhecemos menos chances temos de permanecer vivos. Em um país desenvolvido, espera-se que uma mulher recém-nascida morra em torno dos 79 anos, segundo tabelas de empresas de seguros. Quando chegar aos 79 anos, sua expectativa de vida, presumindo que esteja tipicamente saudável, é de mais dez anos. Aos 90 anos, deverá ter mais 4,7 anos pela frente. Aos 100 anos, mais 2,5 anos. Aos 119, se milagrosamente viver tanto, deverá ter cerca de mais 9 meses de vida. À medida que vive além da data esperada para a morte, o número de anos adicionais restantes diminui, o que ilustra a principal propriedade de variações aleatórias relacionadas à curva na forma de sino. A expectativa condicional de vida adicional é reduzida à medida que a pessoa envelhece.

Com projetos e empreendimentos humanos, a história é diferente. Eles são frequentemente escaláveis, como disse no Capítulo 3. Com variáveis escaláveis, as do Extremistão, testemunha-se o efeito exatamente contrário. Digamos que se espere que um projeto fique pronto em 79 dias, a mesma expectativa que uma mulher recém-nascida tem em anos. No 79º dia, se o projeto não estiver concluído, a expectativa será de que se passem mais 25 dias até a conclusão. Mas no 90º dia, se o projeto ainda não tiver sido concluído, ele ainda deverá ter 58 dias pela frente. No 100º dia, deverão faltar 89 dias até a conclusão. No 119º dia, deverão faltar mais 149 dias. No 600º dia, se o projeto não estiver concluído, a expectativa será de que ele precisará de mais 1.590 dias. Como se pode ver, quanto mais se espera, maior será a expectativa em relação ao tempo que ainda se deverá esperar.

Ou seja: na maioria das vezes, fazer previsões é perda de tempo.

E o que falar então sobre médias?

Se uma corretora te dissesse que possui uma carteira de ativos que obteve um rendimento médio em 2018 de 10% a.a., você provavelmente aprovaria os ativos que esse corretora está indicando. Porém, mudando o cenário pense no seguinte exemplo:

Você não sabe nadar. No meio de um lago há uma mala com 1 milhão de dólares. Você possui 1,8m de altura. Você atravessaria o lago sabendo que a profundidade média dele é de 1m ?

Infelizmente, as médias ignoram os riscos (podem ser positivos ou negativos) e nos leva a focar resultados.

Para cada vez que você mede a rentabilidade dos seus investimentos, você está cobrando resultado deles. E caso você resolva mudar suas alocações de ativos, você pode abandonar um risco positivo e assumir um negativo. Ou vice e versa.

Segue mais um extrato da obra:

“Mesmo que concorde com determinada previsão, você precisa se preocupar com a possibilidade real de uma divergência significativa. Essas divergências podem ser bem-vindas por um especulador que não depende de uma renda estável; um aposentado, no entanto, com um conjunto estabelecido de atributos de risco, não pode se dar ao luxo de tais flutuações. Eu iria ainda mais longe e, usando o argumento da profundidade do rio, afirmaria que o que importa ao abraçar uma política é o limite inferior das estimativas (ou seja, a pior hipótese) — a pior hipótese é muito mais significativa do que a própria previsão. Isso é especialmente verdadeiro se o cenário ruim for inaceitável. Ainda assim, a expressão atual não oferece consideração alguma a isso. Nenhuma sequer.

Costuma-se dizer que “Sábio é aquele que pode ver as coisas que estão para acontecer”. Talvez o sábio seja quem saiba que não pode ver coisas que estão muito distantes.”

Nassim também abordou a questão da tendência em relação ao referencial. Basicamente, a ideia era demonstrar que um determinado comportamento ao longo de um período não seria a regra. Ou, melhor dizendo, para se saber realmente a tendência do evento em questão, precisamos de um referencial que nos dê maior segurança. Claro, isso não significa nada, pois sempre haverá o risco de um cisne negro. Exemplo:

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Então é isso, pessoal. Recomendo muito a leitura desse livro. O autor aborda de uma forma vivaz a questão do risco e nos alerta para o fato de que nem sempre ele será negativo. Viver no extremistão nos proporciona a chance de vivenciar cisnes negros, porém nem sempre será prejuízo. Entretanto, havendo ganho, será diretamente escalável ao grau de aleatoriedade do evento. Saiba lidar com riscos.

Portanto, fecho o post com a conclusão do próprio Nassim:

“Certa vez, recebi um conselho que mudou minha vida, mas que, diferentemente do conselho que recebi de um amigo no Capítulo 3, considero aplicável, sábio e empiricamente válido. Meu colega de turma em Paris, o futuro novelista JeanOlivier Tedesco, pronunciou, enquanto me impedia de correr para pegar o metrô: “Não corro para pegar trens.” Esnobe seu destino. Ensinei-me a resistir à vontade de correr para chegar na hora. Isso pode parecer um conselho muito pequeno, mas ficou gravado. Ao recusar-me a correr para pegar trens senti o valor verdadeiro da elegância e da estética no comportamento, uma sensação de estar no controle do meu tempo, de minha agenda e de minha vida. Perder um trem só é doloroso se você correr para pegá-lo! Da mesma forma, não estar de acordo com a ideia de sucesso que as pessoas esperam de você só é doloroso se for isso que estiver procurando. Você está acima da competição e da hierarquia social, e não fora delas, se fizer isso por escolha própria.

Abandonar uma posição bem-remunerada, se for sua decisão, parecerá uma recompensa melhor do que a utilidade do dinheiro envolvido (pode parecer loucura, mas tentei fazer isso, e funciona). Esse é o primeiro passo rumo ao estóico que manda o destino às favas. Você tem muito mais controle sobre a própria vida se decidir seu critério por conta própria. A Mãe Natureza deu-nos alguns mecanismos de defesa: como na fábula de Esopo, um deles é a capacidade de considerar que as uvas que não podemos alcançar (ou não alcançamos) estão azedas. Mas um desdém e uma rejeição prévia agressivamente estoica das uvas é ainda mais gratificante. Seja agressivo; seja aquele que renuncia, se tiver coragem. É mais difícil ser um perdedor em um jogo estabelecido por si próprio. Em termos de Cisne Negro, isso significa que você é exposto ao improvável somente se permitir que ele o controle. Você sempre pode controlar o que você faz; portanto, faça disso seu objetivo.

Às vezes, fico estarrecido ao ver como as pessoas podem ter um dia terrível ou ficar com raiva porque sentem que foram trapaceadas por uma refeição ruim, por um café frio, uma rejeição social ou uma recepção rude. Lembre-se de minha discussão no Capítulo 8 sobre a dificuldade em se perceber as probabilidades verdadeiras de eventos que dirigem sua própria vida. Esquecemos rapidamente que estar vivo já é uma sorte extraordinária, um evento remoto, uma ocorrência aleatória de proporções monstruosas.Imagine uma partícula de poeira ao lado de um planeta bilhões de vezes o tamanho da Terra. A partícula de poeira representa a probabilidade a favor de seu nascimento; o planeta gigantesco seria a probabilidade contra. Portanto, deixe de se preocupar com coisas pequenas. Não seja como o ingrato que ganhou um castelo de presente e preocupou-se com o mofo no banheiro. Pare de olhar os dentes do cavalo que ganhou de presente — lembre-se de que você é um Cisne Negro.

 

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Uma lição prática de economia real: o que houve com os ricaços da década de 1980?

Direito de autoria do site Mises Brasil.

Um dos erros mais frequentemente encontrados na maioria das análises ideologizadas da ciência econômica é aquele que pressupõe uma visão estática da riqueza.

Quem pensa que a riqueza é estática cai no erro de considerar que, quando uma pessoa se torna rica, ela e seus herdeiros serão ricos — e cada vez mais ricos — para sempre.

Não é necessário ir muito longe para encontrar um exemplo recente deste erro. O economista Thomas Piketty, bastante em voga nestes tempos de demonização dos ricos, demonstra em seu deliciosamente equivocado livro Capital no Século XXI — o qual, obviamente, foi muito elogiado por Paul Krugman — que é muito provável que exista uma tendência dentro do capitalismo de que a rentabilidade do capital se situe acima da taxa de crescimento da economia, o que significa que a classe capitalista irá se apropriar de uma fatia cada vez maior da renda nacional, agravando as desigualdades sociais.

Pior ainda: Piketty também considera provável que os mais ricos dentro da classe capitalista tenham maiores facilidades para obter uma taxa de retorno superior àquela conseguida pelos capitalistas de menor dimensão, o que agravaria esse “curso natural” do capitalismo de fazer com que os super-ricos (e seus herdeiros) se apropriem de fatias crescentes da riqueza total.

Para demonstrar sua teoria, Piketty recorre ao ranking de bilionários elaborado anualmente pela revista Forbes e chega à seguinte conclusão: se agregarmos toda a riqueza possuída pela centésima milionésima parte da população mundial adulta em 1987 (ou seja, as 30 pessoas mais ricas do mundo em 1987) e compararmos esta riqueza à riqueza da centésima milionésima parte da população mundial adulta de 2010 (ou seja, as 45 pessoas mais ricas do mundo), chegaremos à conclusão de que esta riqueza cresceu a uma taxa média real anual de 6,8% (já descontada a inflação).

Isso é o triplo do crescimento médio anual do conjunto da riqueza mundial (2,1%).

Os super-ricos, portanto, estão cada vez mais ricos, segundo Piketty. E estão mais ricos não por causa de sua exitosa gestão empresarial, mas simplesmente porque acumularam uma enorme quantidade de riqueza que é capaz de se auto-reproduzir como se estivesse no piloto automático.

Como diz o próprio Piketty em seu livro: “Uma das lições mais impactantes do ranking da Forbes é que, a partir de um determinado valor de riqueza, todas as grandes fortunas têm suas origens ou na herança ou no valor gerado por uma empresa já estabelecida no mercado, e crescem a taxas extremamente elevadas — independentemente de se seu proprietário trabalha ou não trabalha.”

No entanto, Piketty dá um salto lógico inadmissível: o fato de a riqueza da camada mais rica da sociedade ter crescido a uma taxa média anual de 6,8% entre 1987 e 2010 não significa que as pessoas ricas de 1987 sejam as mesmas de 2010 (ano em que ele escrevia seu livro)

E muito menos que sejam as mesmas de hoje.

E isso faz toda a diferença em sua teoria.

Por exemplo, se o indivíduo A foi a pessoa mais rica do mundo em 1987, tendo uma riqueza estimada em 20 bilhões de dólares, nada impede que, em 2010, este mesmo indivíduo já tenha se arruinado por completo, e que outro indivíduo, o indivíduo B, tenha se tornado a pessoa mais rica do mundo, com uma riqueza estimada em 40 bilhões de dólares.

Tendo isso em mente, será que podemos concluir que a conservação e o acréscimo de riqueza é um processo simples e automático, o qual não requer nenhuma destreza pessoal da parte de seu proprietário? É óbvio que não.

Por sorte, não há necessidade nenhuma de ficarmos apenas especulando hipóteses teóricas sobre o crescimento da riqueza dos super-ricos entre 1987 e hoje. Podemos simplesmente analisar o que de fato ocorreu com os ricaços de 1987.

Será verdade que a riqueza deles cresceu desde então a uma taxa de 6,8% ao ano, como afirma Piketty? Ou será que ela estancou ou até mesmo retrocedeu, fazendo com que eles tenham sido desbancados por outros criadores de riqueza?

Os dez homens mais ricos do mundo em 1987

Foi em 1987 que a revista Forbes começou a elaborar seu ranking de bilionários.

Se você olhar hoje aquela lista de 1987, provavelmente irá se surpreender: você não conhecerá praticamente ninguém. E não, a razão disso não é que a maioria daqueles bilionários morreu; a razão é que praticamente todos eles viram seu patrimônio definhar de maneira considerável.

Comecemos pelo homem mais rico do mundo em 1987: o japonês Yoshiaki Tsutsumi, que tinha uma fortuna estimada em 20 bilhões de dólares. A última vez em que ele apareceu no ranking da Forbes foi no ano de 2006, e sua riqueza já havia encolhido para 1,2 bilhão de dólares.  Descontando-se a inflação do período, isso equivalia a 678 milhões em dólares de 1987.

Ou seja, tomando por base o poder de compra de 1987, sua fortuna caiu de 20 bilhões para 678 milhões entre 1987 e 2006, o que significa que sua riqueza encolheu 96% neste período. E, desde 2006, sua riqueza continuou em irreversível declínio, de modo que ele hoje nem sequer figura no ranking da Forbes.

No entanto, segundo Piketty, a riqueza de Yoshiaki Tsutsumi deveria ter se multiplicado por seis.

O segundo homem mais rico do mundo em 1987 também era japonês: Taikichiro Mori. Na época, ele tinha uma fortuna estimada em 15 bilhões de dólares, o que o tornaria, em 1991, o homem mais rico do mundo, superando Tsutsumi. Taikichiro Mori faleceu em 1993 e legou sua fortuna a seus filhos: Minoru Mori e Akira Mori. O patrimônio conjunto de ambos é atualmente de 6,3 bilhões, o que equivalia a 3,075 bilhões de dólares em 1987. Ou seja, a riqueza encolheu 80%.

Não consegui encontrar dados referentes às atuais fortunas dos homens (ou de seus herdeiros) que ocupavam a terceira e a quarta posição da lista de 1987, os também nipônicos Shigeru Kobayashi e Haruhiko Yoshimoto, com fortunas estimadas em 7,5 bilhões e 7 bilhões de dólares respectivamente. No entanto, o fato de que ambos estavam acentuadamente investidos no setor imobiliário japonês em 1987, e dado que este setor vivenciou uma acentuada desvalorização no período — tudo combinado ao fato de que não há quase nada na internet sobre eles (ou sobre suas famílias) —, parece sugerir que ambos não tiveram melhor sorte do que seus conterrâneos Tsutsumi e Mori.

O quinto lugar da lista de 1987 era ocupado por Salim Ahmed Bin Mahfouz, cambista profissional e criador do maior banco da Arábia Saudita (o National Commercial Bank da Arábia Saudita). Naquele ano, o saudita gozava de uma fortuna estimada em 6,2 bilhões de dólares. Em 2009, faleceu seu herdeiro, Khalid bin Mahfouz, com uma riqueza estimada em 3,2 bilhões de dólares, que equivaliam a 1,7 bilhão em dólares de 1987. Ou seja, um empobrecimento de 72,5%.

O sexto lugar da lista era ocupado pelos irmãos Hans e Gad Rausing, donos da multinacional sueca Tetra Pak. Ambos detinham um patrimônio estimado em 6 bilhões de dólares.  Atualmente (2019), Hans Rausing, já com 92 anos de idade, possui um patrimônio estimado em 12 bilhões de dólares, e ocupa a discretíssima 112ª posição entre os mais ricos do mundo. Gad morreu no ano 2000, mas estima-se que seus herdeiros possuem uma fortuna de 13 bilhões de dólares. No total, portanto, a fortuna de ambos passou de 6 bilhões de dólares para 25 bilhões. No entanto, descontando-se a inflação do período, o enriquecimento de ambos foi muito menor: de 6 bilhões para 12,90 bilhões, o que equivale a uma taxa média de rentabilidade anual de 2,5%. Muito abaixo dos 6,8% sugeridos por Piketty.

O sétimo lugar era ocupado por um trio de irmãos: os irmãos Reichmann, proprietários da Olympia and York, uma das maiores imobiliárias do mundo. Sua riqueza também era estimada em 6 bilhões de dólares. No entanto, cinco anos depois, a empresa protagonizou uma das mais estrondosas bancarrotas da história, a qual reduziu seu patrimônio a apenas 100 milhões de dólares. Um dos irmãos, Paul, conseguiu se recuperar das cinzas e hoje a riqueza de seus herdeiros está estimada em 2 bilhões de dólares, equivalentes a 925 milhões em dólares de 1987.  Ou seja, uma perda de 84%.

A oitava posição estava ocupada por outro japonês, Yohachiro Iwasaki, com uma fortuna estimada em 5,6 bilhões de dólares. Seu herdeiro, Fukuzo Iwasaki, morreu em 2012 com um patrimônio de 5,7 bilhões, equivalentes a 2,8 bilhões em dólares de 1987: ou seja, uma perda patrimonial de 50%.

Melhor sorte teve o nono homem mais rico do mundo em 1987: o canadense Kenneth Roy Thomson, proprietário da Thomson Corporation (hoje parte do grupo Thomson Reuters). Naquele ano, Kenneth desfrutava um patrimônio de 5,4 bilhões de dólares; quando morreu, em 2006, havia conseguido incrementá-lo para 17,9 bilhões, equivalentes a 9,3 bilhões em dólares de 1987. Neste caso, sua média de retorno anual foi de 2,9%. De novo, muito abaixo dos 6,8% certificados por Piketty.

Finalmente, em décimo lugar estava Keizo Saji, com um patrimônio de 4 bilhões de dólares. Saji morreu em 1999 com uma fortuna de 6,7 bilhões de dólares, a qual, descontando-se a inflação do período, equivalia a 4,6 bilhões em dólares de 1987.  Ou seja, uma taxa média de retorno anual de 1,1%.

A extremamente complicada conservação do capital

Ludwig von Mises já alertava para a inevitabilidade deste fenômeno ainda na década de 1940:

Em uma economia de mercado, naquela em que há liberdade de empreendimento, e ausência de privilégios e protecionismos estatais, a riqueza de um indivíduo representa a recompensa concedida pela sociedade pelos serviços prestados aos consumidores no passado. 

E esta riqueza só pode ser preservada se ela continuar a ser utilizada — isto é, investida — no interesse dos consumidores.  

Atribuir a cada um o seu lugar próprio na sociedade é tarefa dos consumidores, os quais, ao comprarem ou absterem-se de comprar, estão determinando a posição social de cada indivíduo. Os consumidores determinam, em última instância, não apenas os preços dos bens de consumo, mas também os preços de todos os fatores de produção. Determinam a renda de cada membro da economia de mercado.

Se um empreendedor não obedecer estritamente às ordens do público tal como lhe são transmitidas pela estrutura de preços do mercado, ele sofrerá prejuízos e irá à falência. Outros homens que melhor souberam satisfazer os desejos dos consumidores o substituirão.

Os consumidores prestigiam as lojas nas quais podem comprar o que querem pelo menor preço. Ao comprarem e ao se absterem de comprar, os consumidores decidem sobre quem permanece no mercado e quem deve sair; quem deve dirigir as fábricas, as fornecedoras e as distribuidoras. Enriquecem um homem pobre e empobrecem um homem rico. Determinam precisamente a quantidade e a qualidade do que deve ser produzido. São patrões impiedosos, cheios de caprichos e fantasias, instáveis e imprevisíveis.  

Para eles, a única coisa que conta é sua própria satisfação. Não se sensibilizam nem um pouco com méritos passados ou com interesses estabelecidos.

Contrariamente ao que muitos imaginam, e ao que Thomas Piketty pretende demonstrar, não é nada simples conservar seu patrimônio em uma economia de mercado: este sempre estará ao sabor (1) das volúveis e inconstantes preferências dos consumidores, (2) do surgimento de novos concorrentes que podem acabar roubando sua fatia de mercado, (3) de um possível reajuste (e posterior colapso) do preço dos seus ativos e, é claro, (4) das políticas econômicas de sucessivos governos.

É teórica e empiricamente falso dizer que há um valor acima do qual a acumulação de capital passa a ocorrer de modo quase automático.

Com efeito, a realidade chega a ser oposta: quanto maior for o patrimônio pessoal de um indivíduo, mais complicado será fazê-lo crescer. As oportunidades para reinvestir todo o seu capital a altas taxas de retorno são muito escassas, a menos que se queira arriscar e se aventurar em outros mercados, nos quais não se tem nenhuma vantagem comparativa.

As mesmas razões que fazem com que um estado grande seja um péssimo gestor de capitais servem para explicar por que os bilionários vão ficando sem ideias e aptidões para gerenciar sua fortuna — até o ponto em que não mais são capazes de se reinventarem continuamente, acabando por ver seu patrimônio reduzido, nem que seja apenas pela inflação.

Não é à toa que a sabedoria popular a este respeito vale mais do que as elucubrações de muitos economistas míopes: from clogs to clogs in three generations[1], o que significa que a riqueza acumulada por uma geração já estará totalmente dissipada na terceira geração.

Atualmente, com efeito, nem sequer são necessárias três gerações. Bastam três décadas para se perder quase tudo.

Para concluir

Hoje, os sobrenomes Tsutsumi, Mori, Reichmann, Iwasaki e Saji são praticamente irrelevantes. Da mesma maneira, em 1987, muitos dos homens mais ricos da atualidade — Bill Gates, Jeff Bezos, Larry Page, Amancio Ortega, Larry Ellison, Sergey Brin, Mark Zuckerberg — estavam trabalhando em uma garagem, ou estavam fazendo faculdade, ou estavam brincando no jardim de infância. Nenhum herdou sua atual fortuna. Veremos quantos deles seguirão na lista dentro de três décadas.


[1] Clogs é um tipo de sapato barato, feito inteiramente de madeira e comumente utilizado por operários que realizam trabalho pesado.

A jornada do Juruna – Aporte nº 63

Aporte nº 63, março de 2019.

Para quem não sabe da história do nosso protagonista, veja aqui.

Aviso: não sou profissional com certificações para indicar investimentos! Todas as informações fornecidas neste site têm o intuito de provocar, de forma simples e didática, a busca por conhecimento para o leitor melhor conduzir a própria vida financeira.

Em 13/03/2019, o patrimônio de Juruna estava composto nas seguintes quantidades:

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Dinheiro novo em Mar/19:

  • Aporte: R$ 2.000,00;
  • Proventos referentes a Fev/19: R$ 13,54;
  • Total a ser investido em Mar/2019: R$ 2013,54.

Respeitando o limite imposto na estrutura do patrimônio, Juruna aportou em renda variável, adquirindo 97 ações de FLRY3 no preço máximo do pregão de 13/03/2019 (R$ 20,68).

Para quem quiser verificar a evolução do patrimônio de Juruna desde jan/2014, segue o link para o download da planilha: Carteira do Juruna mar-2019

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Visão geral do portifólio do Juruna em Mar/2019
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Diversificação na renda variável
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Patrimônio do Juruna após o aporte de Mar/2019

Com isso é tudo, pessoal.

Nosso amigo Juruna segue acumulando. Foco no processo!

Abraços.

O Efeito Diderot: Por que desejamos coisas que não precisamos – E o que fazer a respeito

O famoso filósofo francês Denis Diderot viveu quase toda a sua vida na pobreza, mas tudo isso mudou em 1765.

Diderot tinha 52 anos e sua filha estava prestes a se casar, mas ele não podia dar ao luxo de fornecer um dote. Apesar de sua falta de riqueza, o nome de Diderot era bem conhecido, porque ele era o cofundador e escritor da Encyclopédie, uma das enciclopédias mais abrangentes da época.

Quando Catarina a Grande, a imperatriz da Rússia, ficou sabendo dos problemas financeiros de Diderot, ela se ofereceu para comprar a biblioteca dele por 1000 libras, o que é aproximadamente 50.000 em dólares de 2015. De repente, Diderot tinha dinheiro de sobra.[1]

Logo após sua afortunada venda, Diderot adquiriu um roupão novo escarlate. Foi a partir daí que tudo começou a dar errado. [2]

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Diderot e seu bendito roupão escarlate. Por Louis-Michel van Loo em 1767.

O roupão escarlate de Diderot era lindo. Na realidade, tão bonito que ele imediatamente percebeu o quanto parecia fora de lugar quando rodeado pelo resto de seus pertences. Em suas palavras, “não havia mais coordenação, mais unidade, mais beleza” entre o manto e o resto de seus itens. O filósofo logo percebeu a necessidade urgente de comprar algumas coisas novas para combinar com a beleza de seu manto. [3]

Ele trocou seu velho tapete por um novo de Damasco. Ele decorou sua casa com belas esculturas e uma mesa de cozinha melhor. Ele comprou um novo espelho para colocar sobre a lareira e sua “cadeira de palha foi relegada à antessala por uma cadeira de couro.”

Esta reação em cadeia de compras ficou conhecida como o Efeito Diderot.

O Efeito Diderot declara que obter uma nova posse frequentemente cria uma espiral de consumo que leva você a adquirir mais coisas novas. Em consequência, acabamos comprando coisas que nossas personalidades anteriores jamais precisaram para se sentir felizes ou realizadas.  

Como muitos outros, eu fui vítima do Efeito Diderot.

Recentemente eu comprei um carro novo e acabei comprando todos os tipos de acessórios internos dele. Comprei um calibrador de pneus, um carregador de carro para meu celular, uma sombrinha extra, um kit de primeiros socorros, um canivete, uma lanterna, cobertores de emergência e até uma ferramenta para cortar o cinto de segurança.

Permita-me salientar que tive meu carro anterior por quase 10 anos, e nunca senti que qualquer dos itens previamente mencionados valiam a pena ser comprados. E, no entanto, depois de obter o meu radiante carro novo, percebi que estava caindo na mesma espiral de consumo como Diderot. [4]

Você pode detectar comportamentos similares em muitas outras áreas da vida:  

  • Você compra um vestido novo e agora você tem que ter sapatos e brincos para combinar;
  • Você entra em um programa de CrossFit e logo está pagando por rolos de espuma, joelheiras, munhequeiras, e planos de alimentação paleolítica;
  • Você compra para sua filha uma boneca American Girl e se vê comprando mais acessórios que jamais imaginou que existissem para bonecas;
  • Você compra um sofá novo e de repente você está questionando a disposição de toda a sua sala de estar. Essas cadeiras? Essa mesa de café? Esse tapete? Todos eles têm que sair.

A vida tem uma tendência natural para se tornar preenchida com mais. Dificilmente tentamos voltar atrás, simplificar, eliminar, reduzir. Nossa inclinação natural é sempre acumular, acrescentar, renovar e reformar. Nas palavras da professora de sociologia Juliet Schor:

“a pressão para atualizar nosso estoque de coisas é implacavelmente unidirecional, sempre ascendente.” [5] 

O Efeito Diderot nos diz que a vida só vai ter mais coisas batalhando para entrar nela, então você precisa entender como administrar, eliminar e se concentrar nas coisas que importam.

Exponha-se menos. Quase todos os hábitos são iniciados por um gatilho ou estímulo. Uma das maneiras mais rápidas para reduzir o poder do efeito Diderot é evitar seus efeitos desencadeantes, em primeiro lugar.

Cancele os e-mails comerciais. Ligue para as revistas que lhe enviam catálogos e exclua-se da lista de destinatários dele. Encontre amigos no parque ao invés do shopping. Bloqueie seus sites de compras.

Compre itens que se encaixam no seu sistema atual. Você não precisa começar do zero cada vez que compra alguma coisa nova. Quando comprar roupas novas, procure por itens que combinem bem com seu guarda-roupa atual.

Quando atualizar um novo eletrônico, pegue coisas que funcionam bem com seus acessórios atuais, assim você evita ter de comprar novos carregadores, adaptadores, ou cabos.

Imponha seus próprios limites. Viva uma vida cuidadosamente controlada criando limitações que você tenha que seguir. Juliet Schor nos dá um grande exemplo com esta citação:

“Imagine o seguinte. Um grupo comunitário em nossa cidade organiza um abaixo-assinado dos pais concordando em não gastar mais de US$50 em tênis esportivos para seus filhos. O pessoal da creche de seu filho solicita um limite de US$75 nos gastos para festas de aniversário.

As reuniões do conselho escolar da comunidade apoiam a troca para uniformes escolares. O Círculo de Pais e Mestres consegue que 80% dos pais imponham limites de no máximo uma hora por dia para seus filhos assistirem TV.  

Você quer que alguém da comunidade ou do colégio de seus filhos tome essa ou outras iniciativas semelhantes? Eu penso que milhões de pais americanos desejariam.  

Televisão, sapatos, roupas, festas de aniversário, uniformes esportivos – estas são áreas onde muitos pais sentem-se pressionados em permitir que seus filhos consumam em um nível além do que eles acham que é o melhor, desejam gastar, ou podem confortavelmente suprir.”

E como anular o efeito Diderot?

  1. Compre um, Dê um: cada vez que você fizer uma nova compra, doe algo a alguém. Comprou uma TV nova? Doe a antiga em vez de mudá-la para outro quarto. A ideia é impedir que o número de itens aumente. Sempre administre sua vida para incluir apenas coisas que lhe tragam alegria e felicidade;
  2. Fique um mês sem comprar nada novo: não se permita compra nada novo por um mês. Ao invés de comprar um cortador de grama novo, alugue de algum vizinho. Consiga sua nova camisa de um saldão da economia ao invés de uma loja de departamentos. Quanto mais nos impomos limites, mais criativos ficamos;
  3. Deixe de querer coisas: Jamais chegará o dia em que você cansará de querer as coisas. Tem sempre alguma coisa que você pode melhorar. Tem um Honda novo? Você pode trocar por uma Mercedes. Comprou uma Mercedes nova? Você pode trocar por um Bentley. Comprou um Bentley novo? Você pode trocar por uma Ferrari. Comprou uma Ferrari nova? Já pensou em comprar um avião particular? Realizar este desejo é apenas uma opção de sua mente, não uma ordem a ser cumprida.
  4. Atenção à tendência consumista: nossa tendência natural é consumir mais, não menos. Devido a esta tendência, acredito que tomar providências efetivas para reduzir o grau excessivo de consumo torna nossa vida melhor.

Pessoalmente, meu objetivo não é reduzir a vida à menor quantidade de coisas, mas preenchê-la com a quantidade ideal. Espero que este artigo ajude você a refletir sobre como fazer o mesmo.

Nas palavras de Diderot,

“Deixem meu exemplo lhes ensinar uma lição. A pobreza tem suas liberdades; a opulência tem seus obstáculos.” [6]

Notas de rodapé:

  1. Além do pagamento pela sua biblioteca, Catarina A Grande pediu a Diderot para cuidar dos livros até que ela precisasse deles, e ofereceu para pagar a ele um salário anual para trabalhar como seu bibliotecário.
  2. O roupão escarlate de Diderot é frequentemente descrito como um presente de um amigo. No entanto, não encontrei nenhuma fonte original que dissesse que era um presente nem qualquer menção a um amigo que o tivesse dado. Se acontecer de você saber de algum historiador especializado em aquisições de mantos, sinta-se à vontade para me indicar, para que possamos solucionar o mistério da origem do famoso manto escarlate de Diderot.
  3. As citações de Denis Diderot neste artigo vem de seu ensaio, “Regrets for my Old Dressing Gown.”
  4. Alguns leitores apontaram que as minhas aquisições foram inteligentes, não desnecessárias. Isso pode até ser verdade, mas ainda assim é um exemplo do Efeito Diderot. Só para esclarecer: O Efeito Diderot significa simplesmente que quando nós obtemos um novo item, nós tendemos a adquirir outros. Não é um julgamento válido que só se aplica às compras desnecessárias. Então, mesmo que as minhas compras tenham sido inteligentes, eu ainda me sinto vítima de comprar mais coisas depois que fiz minha primeira compra. Claro, o Efeito Diderot resulta com frequência em compras desnecessárias, este é o porquê pelo qual foquei este ponto de vista neste artigo.
  5. “The Overspent American: Why We Want We Don’t Need” (sem tradução em português, algo como O Inveterado Consumista Americano: Por que Queremos o Que Não Precisamos) de Juliet Schor. Capítulo 6.
  6. Obrigado ao meu amigo Joshua Becker por ter sido o primeiro a despertar meu interesse no Efeito Diderot ao escrever seu próprio artigo sobre este assunto.

Fonte do artigo: The Diderot Effect: Why We Want Things We Don’t Need — And What to Do About It

 

Contabilidade para Jurunas: Demonstração do Fluxo de Caixa

Dando prosseguimento às explicações das principais demonstrações contábeis exigidas para se realizar uma boa análise da empresa, chegamos à demonstração de fluxo de caixa. A DFC, como a DRE, é dinâmica, dado que ela indica a origem da entrada e saída de recursos disponíveis no caixa da entidade.

Segundo a lei 6404, no art. 188 a DFC mostrará as alterações ocorridas, durante o exercício, no saldo de caixa e equivalentes de caixa, segregando-se essas alterações em, no mínimo, 3 (três) fluxos:

  1. das operações – atividades operacionais são as principais atividades geradoras de receita da entidade atividades geradoras de receita da entidade e outras atividades diferentes das de investimento e de financiamento;
  2. dos financiamentos – atividades de financiamento são aquelas que resultam em mudanças no tamanho e na composição do capital próprio e endividamento da entidade;
  3. dos investimentos – atividades de investimento são as referentes à aquisição e venda de ativos de longo prazo e investimentos não incluídos nos equivalentes de caixa.

A entidade deve divulgar os fluxos de caixa das atividades operacionais, usando:

„(a) o método direto, segundo o qual as principais classes de recebimentos brutos e desembolsos brutos são divulgadas; ou

(b) o método indireto, segundo o qual o lucro líquido ou prejuízo é ajustado pelos efeitos: das transações que não envolvem caixa; de quaisquer diferimentos ou outras apropriações por competência sobre recebimentos ou pagamentos operacionais passados ou futuros; e de itens de receita ou despesa associados com de itens de receita ou despesa associados com fluxos de caixa das atividades de investimento ou de financiamento.

As entidades são encorajadas a divulgar os fluxos de caixa decorrentes das atividades operacionais usando o método direto.  O método direto proporciona informações que podem ser úteis para estimar futuros fluxos de caixa e que não estão disponíveis com o uso do método indireto.

DFC
Método direto x indireto. Fonte: Sá (2009, p.36)

 

Percebemos a importância da DFC como ferramenta da gestão financeira, permitindo que as empresas possam projetar seus recursos financeiros e operacionais por certo período. Assim é possível com o fluxo de caixa verificar, planejar e controlar eventuais excedentes e escassez de caixa, para poder tomar decisões e medidas que venham sanar qualquer situação posterior que venha prejudicar a companhia.

Como via de regra, quanto maior o caixa da empresa, maior a sua capacidade em honrar seus compromissos. No mercado temos diversos exemplos de S/A com dívida negativa.

-Dívida negativa? Que pirâmide é essa?

-Calma que não tem rolo. Simplesmente a conta caixa da empresa é maior que a dívida dela mesma. Confira a tabela abaixo:

Empresas
Se a empresa querer acabar com a dívida, ela acaba. Simples assim.

-Pracinha, por que então a empresa não quita a própria dívida? Ela já tem caixa para isso!

-Ela não precisa quitar a dívida. Nem sempre uma obrigação de curto/longo prazo é ruim para uma empresa. Enquanto a taxa de juros que incide sobre o capital financiado for menor que retorno auferido pela companhia em suas atividades operacionais, ela pode muito bem conviver com a dívida.

Há uma grande vantagem em se ter uma dívida negativa, porém não se deve perseguir somente empresas que não possuam obrigações. Existem setores que não permitem o funcionamento das organizações sem que elas realizem financiamentos para operar o próprio negócio. Exemplo: setores que envolvam concessões (elétricas, rodovias), construtoras, setor financeiro (óbvio) etc.

Partindo para o mundo real, temos:

 

Empresas
DFC 3º Trim FLRY3

Na DFC acima observamos que a empresa está direcionando o caixa para as atividades de investimento. A aquisição de ativos permanentes é explicado pelo plano de expansão da empresa, previsto para terminar em 2021 (começou em 2016).

Extrato retirado do release do 3ºtrm 2018 da empresa:

“Desde o anúncio de nosso Plano de Expansão no último trimestre de 2016 até setembro/18, inauguramos 44 unidades, que correspondem a um incremento bruto de 15,7 mil metros quadrados de área de atendimento. Desta área, 55% foram inauguradas há menos de 12 meses, o que significa que a maior parte dessas unidades ainda está no estágio inicial da curva de maturação.”

Quem acompanha a companhia e percebe o direcionamento dela, dificilmente se surpreenderá com uma demonstração contábil que não agrade à maioria. Amanhã teremos a divulgação do 4ºtrm de 2018 de FLRY3. Pode ser que o balanço venha ou “flat”, ou com crescimento, ou queda. O que sabemos é que a companhia continuará se endividando para prosseguir no plano que ela mesma traçou há 3 exercícios financeiros atrás.

Dessa forma, concluo a explanação sobre DFC. É uma demonstração fácil de entender, porém para ela fazer sentido, sempre procure saber o rumo que a companhia está tomando. Evite seguir padrões nas análises.

“A parte exata da análise das demonstrações contábeis se limita a números e fórmulas. É a parte com mais trabalho e pouca dificuldade. Já na decisão temos menos trabalho, porém, muita dificuldade”.

-Juruna

#estude

 

Destrinchando a margem líquida. Tipos de empresas e considerações importantes

Direito de autoria do blog além da poupança.

Na minha metodologia de escolha das empresas que comporão meu portfólio de ações, considero a avaliação da margem líquida um dos seus pilares fundamentais. Na minha opinião, esta variável é um forte indicador da vantagem competitiva perante seus pares, bem como mostra o grau de sobrevivência que a empresa poderá ter em mercados recessivos. Este indicador é um dos que me fornece boas suposições de que a empresa poderá se tornar lucrativa no longo prazo. Baseado nisto, esta postagem tem por objetivo compartilhar com vocês os 4 tipos existentes de empresas de acordo com sua margem líquida, bem como algumas considerações extras.

Antes de adentrarmos nestes grupos, é importante esclarecer o que é margem líquida.

Considerada “a língua dos negócios” por Warren Buffett, a contabilidade e suas demonstrações financeiras são ferramentas que fornecem uma boa ideia da saúde financeira de uma empresa. Apesar de não oferecer nenhum insight do que acontece no dia a dia da companhia, as demonstrações financeiras proporcionam uma ideia geral do nível de prosperidade da empresa, mesmo que o analista nunca tenha colocado os pés no local.

Uma dessas demonstrações é chamada “Demonstração de Resultado de Exercício” (DRE), que é basicamente um pequeno filme da relação entre receitas e despesas que incidiram em um determinado período (normalmente um trimestre ou ano). Colocarei abaixo um exemplo resumido de DRE de duas empresas:

01
Neste DRE simples (apenas para fins dessa postagem), a linha “Receita Líquida de Vendas” representa as vendas da empresa no ano de 201X. Após a dedução dos custos de produção envolvidos, apura-se o “Resultado Bruto”. Deste resultado, desconta-se as “Despesas Gerais e Administrativas” ocorridas para a empresa funcionar. Do que sobra, desconta-se o “Imposto de Renda” para descobrir qual o lucro líquido do ano. Neste exemplo, podemos perceber que a empresa A lucrou mais que a empresa B (638 mil reais contra 525 mil reais).

Voltando ao assunto da postagem, quando se fala em margem líquida, o investidor basicamente quer saber de cada real que entra como receita, o quanto sobra como lucro líquido. Para saber essa resposta, precisamos fazer uma conta muitíssimo simples. Basta dividirmos o lucro líquido pela receita líquida. No exemplo acima, podemos perceber que a empresa A nos dá uma margem líquida de 10,2%. Isso significa que para cada real de receita, a empresa efetivamente lucrou 10,2 centavos após a dedução dos custos, despesas e tributos. Em contrapartida, o mesmo cálculo aplicado a empresa B nos dá uma margem líquida de 16,4%, ou uma sobra de 16,4 centavos por real de receita.

O que de fato isso significa? Significa que, apesar da empresa A lucrar mais que a B, seu processo produtivo e administrativo é, em relação a sua receita, mais custoso. Em outras palavras, ela gasta mais para lucrar. Mesmo que o investidor nunca tenha colocado os pés na empresa, o balanço parece indicar que, por algum motivo, a empresa B parece ser mais eficiente que a empresa A.

Quais seriam os motivos para isso? Talvez os produtos da empresa B sejam de melhor qualidade, o que faz com que os clientes aceitem pagar a mais; talvez seus custos com aluguéis são menores; talvez ela seja uma empresa com pouca dívida; talvez ela esteja localizada perto de seus clientes ou de seus fornecedores, o que faz o frete ser mais barato; talvez utilize equipamentos mais modernos, com maior produtividade; talvez ela consiga operar com uma equipe mais enxuta; talvez ela esteja mais atenta ao combate a desperdícios; talvez seus processos de produção ou de prestação de serviços sejam mais eficazes, enquanto a concorrente esteja acostumada a trabalhar “apagando incêndio”; talvez ela tenha um processo mais verticalizado; talvez ela atue em um local com menos concorrentes; talvez ela possua menos custos judiciais; talvez seja um pouco de cada um dos itens anteriores. De qualquer forma, mesmo que o investidor não consiga identificar exatamente o motivo, o balanço parece indicar que a empresa B pode estar apresentando uma provável vantagem competitiva em relação a empresa A.

Em momentos de retração, a produção menos custosa da empresa B pode significar mais resiliência. Vamos supor um cenário retrativo que force as empresas a baixarem seus preços em 15%, impossibilitando que se diminua os custos de bens e as despesas. Neste cenário hipotético, as DRE seriam assim:

02
A empresa A, mesmo vendendo mais, ficaria no vermelho, enquanto que a empresa B ainda estaria utilizando uma gordura para operar no azul.

Os 4 tipos de empresas

No mundo dos negócios há uma quase-regra não escrita que diz que as empresas que possuem altas margens são as que vendem produtos de maior valor agregado ou prestam serviços mais especializados, o que permite que a empresa cobre um alto valor em relação aos custos envolvidos, mas em contrapartida não os venda com frequência. Como um exemplo, podemos citar uma fábrica de processadores. Um produto altamente tecnológico, que cabe na palma da mão de uma criança, mas que as pessoas não compram frequentemente (quantos microprocessadores uma família compra por ano?).

Por outro lado, há aquelas empresas que vendem produtos frequentemente, mas que, como uma regra não escrita, a margem de seus produtos é baixa. Como exemplo, podemos citar o comércio em geral, cuja finalidade é comprar no atacado e revender no varejo. O ganho deles está na quantidade. No último balanço do Carrefour, sua margem líquida foi de 2,6%. Isso significa que quando você faz sua compra mensal de 600 reais no Carrefour, após o pagamento dos custos, despesas e impostos, sobram apenas R$15,60 de lucro líquido para a empresa! Essa margem de 2% é bem típica deste setor. (Na realidade, o lucro é até menor, pois a compra de 600 reais é receita bruta, e não receita líquida. Mais detalhes no livro de contabilidade mais próximo).

Entretanto, há empresas que fogem desta “regra” vende-pouco-margem-alta ou vende-muito-margem-baixa. Por isso, te apresento na imagem abaixo os 4 tipos de empresas existentes, considerando sua margem líquida e sua frequência de vendas:

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Tipo 1 – Empresa vende pouco e possui margem baixa

O primeiro tipo de empresa é aquela que você deveria evitar a todo custo. É aquela empresa que possui um produto ou presta um serviço que é fornecido em pequenas quantidades e que possui uma margem líquida baixa. Pegando um exemplo real, podemos mencionar a Embraer (EMBR3).

Quando ela está em boníssima forma, sua margem líquida se situa em 8%. Em condições normais, sua margem gira por volta de 3 ou 4%. Lembre-se, estamos falando do mercado de construção de aviões! Não se encontram engenheiros “aviônicos” em cada esquina. É um produto cujo todo o processo produtivo requer equipe, equipamentos e materiais altamente especializados.

Um produto tão complexo mas ao mesmo tempo tão escasso deveria ter uma margem muito maior do que meros 4%. Com uma margem tão pequena, a empresa rotineiramente apresenta prejuízos. Este tipo de empresa só recomendo para pessoas que realmente entendem do mercado em que a empresa se situa. Se você não entende, não se preocupe. Há centenas de empresas listadas na bolsa de valores.

Outro exemplo deste grupo é a Technos. Em um país que existem mais celulares do que pessoas, seu produto perdeu sua finalidade principal, sendo apenas uma questão de ostentação. É valida uma margem de 1% para um produto deste tipo? É difícil criar riqueza quando se ganha 1 centavo por real de receita produzindo um produto dispensável.

Tipo 2 – Vende pouco com margem alta e Tipo 3 vende muito com margem baixa

A maioria das empresas se enquadra nestes tipos. Empresas mais ligadas à prestação de serviços são mais prováveis de estarem no grupo 2, mas há outros setores também. Podemos citar CVC (CVCB3), Aliansce (ALSC3) e Eztec (EZTC3).

Do grupo 3, empresas ligadas ao comércio e à alimentação são exemplos: Via Varejo (VVAS11), Lojas Americanas (LAME3), Josapar (JOPA4) e Magazine Luiza (MGLU3).

Tipo 4 – Vende muito com margem alta

São aquelas empresas que conseguem aliar a proeza de margem alta com magnífica alta frequência de vendas. Se você quer ser vencedor da bolsa, é este tipo de empresa que você precisa procurar (de preferência enquanto ela é pequena).

Podemos dizer que parte considerável das ações vencedoras são empresas deste tipo. É muito comum que indústrias, empresas de tecnologia e certos prestadores de serviços se enquadrarem nesta categoria.

Veja por exemplo a Ambev, a rainha da bolsa brasileira. Ela é uma empresa que inunda o mercado com seus produtos, ao mesmo tempo que consegue reter 22 centavos de cada real de receita.

Podemos considerar também como exemplo a Telefônica (VIVT4), cujos serviços são frequentes e ajudam a empresa a reter 21 centavos por real.

A Cielo, empresa que cresceu absurdamente na primeira metade da década, também é uma empresa que se enquadra neste grupo. Imagine a quantidade de passadas de cartão que seu sistema processa diariamente! O custo disso é tão baixo que ela hoje retém 33 centavos de cada real de receita (e olha que já foi melhor!).

Para estre tipo de empresa, quanto maior a frequência e quanto maior a margem, melhor será. Quanto efetivamente custa para a Apple produzir seus caríssimos iPhones e vende-los para aquela legião de fanáticos que fazem fila dias antes de um lançamento?

Empresas de commodities

Empresas de commodities (aquelas que produzem materiais básicos como petróleo, grãos, café, minérios, etc) estão constantemente situadas entre o tipo 3 e 4. Elas apresentam expansão no momento 4 e manutenção ou retração quando estão no momento 3.

Diante de seus movimentos cíclicos, algumas pessoas sustentam a tese de que se deve investir em empresas deste tipo justamente quando sua margem líquida está baixa e sua relação Preço/Lucro está alta, e vendê-las quando sua margem líquida está alta e sua relação Preço/Lucro está baixa.

De qualquer forma, a verdade é que este tipo de investimento deve ser feito com extremo cuidado.

O que é margem alta?

Não há nenhuma regra definindo o que é margem alta. Ao apontarmos para um saco de farinha de 3 reais e perguntarmos para um leigo quanto deve ter custado para o mercado, este responde que o mercado deve ter comprando por um real e está revendendo por três. Se isso fosse verdade, a concorrência logo espremeria esta fantástica margem a fim de atrair mais clientes. Em geral, as margens praticadas pela indústria e comércio são muito inferiores do que o senso comum acha que é. Parte considerável das companhias trabalham com margem líquida de um dígito. Diante disso, considero que qualquer coisa acima de 15% já está de bom tamanho para ser considerada margem alta.

O lado ruim de uma margem alta

Digamos que você está com dinheiro sobrando e quer montar um negócio próprio. Você prefere criar uma empresa onde a cada real de receita, seu lucro seja de 20 centavos ou de 2 centavos? Obviamente a de maior margem. Diante desse cenário, setores com margens altas tendem a atrair concorrentes dispostos a baixarem os preços a fim de atrair novos clientes, o que pressiona as margens.

Se você quer investir em uma empresa de alta margem, é necessário considerar qual o nível de proteção que esta empresa pode ter em relação a possíveis concorrentes.

Pegue o exemplo de uma Ambev. Para alguém que quer competir com ela, seria necessário  investir bilhões na construção de um parque fabril, contato com fornecedores e a construção de diversos centros de distribuição para competir com uma marca que está há décadas. O montante requerido para se investir é um entrave à concorrência.

Pense em uma Intel com seus 15,3% de margem líquida. Para um concorrente se estabelecer, seria necessário o investimento massivo em tecnologia para se tentar criar um produto estupidamente complexo e protegido por patentes.

Por outro lado, pense na Cielo. Quais mecanismos de defesa que essa empresa com margem fantástica possui? Será que esta queda que está acontecendo com ela hoje não é fruto da ameaça de uma concorrência audaciosa que está entrando em um setor com poucas barreiras? O caso da Cielo é tão emblemático que merece uma postagem à parte.

Margem líquida baixa não é ruim

Particularmente gosto de empresas com margens altas, mas isso não quer dizer que margens baixas são ruins. Comércio em geral são empresas com margens baixas, mas que possuem flexibilidade para expansão rápida, trazendo enormes retornos para seus acionistas.

Além disso, uma empresa com margem baixa pode aumentar seus lucros fantasticamente com qualquer virgulazinha de melhora na sua margem. Uma empresa com margem líquida de 1% que consegue aumentar meros 0,5% significará que seu lucro líquido aumentou em 50%!

Margem líquida em empresas em recuperação

Por consequência do item anterior, quando falamos em empresas em recuperação, uma margem líquida baixa é bem-vinda pois pode-se monitorar o grau de recuperação destas empresas em dificuldades de acordo com como se move sua margem líquida. Aumentar o que se é baixo é menos trabalhoso que aumentar o que já é alto. Uma empresa em dificuldades com 2% de margem líquida e que após uma caça às bruxas nos seus custos, consegue aumentá-la para 4%, pode representar uma sobrevida. Por outro lado, uma empresa em dificuldades com margem líquida de 15% (isso existe?), que a aumenta para 17% pode significar quase nada.

Margem líquida em bancos

No setor bancário não se fala em margem líquida alta ou baixa. Eles possuem um procedimento de análise a parte. Alguns dizem que margem líquida alta em bancos é até prejudicial, sinalizando que o banco está tomando muito risco em seus empréstimos.

Comparação intrassetorial

Em geral, é preferível comparar margem entre empresas do mesmo setor. Pegue por exemplo o setor de siderurgia. A Ferbasa, apesar de ser muito menor que suas pares, sofreu menos no setor no período de 2013 para cá provavelmente por causa de sua situação financeira altamente estável e com poucas dívidas, o que faz dela a empresa com maior margem.

O mesmo pode-se dizer de EZTC3, que insiste em trabalhar sem alavancagem em um setor cuja dívida é a regra. Sua margem acima de 25% sempre esteve presente, fazendo dela uma das que menos tenha sofrido nos últimos anos recessivos.

Esse exemplos mostram que quando você for analisar empresas do mesmo setor, dê uma olhada na sua margem líquida, que pode mostrar um sinal de resiliência da empresa perante seus pares.

Evolução da margem líquida

O acompanhamento da evolução da margem líquida ano a ano também pode dizer muito sobre a empresa se ela está ganhando ou perdendo vantagem competitiva perante seus pares.

Insistindo no exemplo da Cielo, apesar de sua atual margem fantástica, a comparação ano-a-ano denuncia que algo ruim está acontecendo. Pior ainda, a atual margem mostra que o setor ainda tem fôlego para a agressividade dos atuais concorrentes ou para a entrada de novos.

A Eternit sempre foi uma empresa voltada para os dividendos, mas seu constante aumento das dívidas resultava em uma diminuição ano-a-ano de sua margem líquida. Era um sinal de que as coisas não estavam tão bem.

Seja qual for o tipo de sua empresa (menos banco), monitore a evolução de sua margem líquida. Algumas vezes esse número pode te dar indicações sobre a saúde da empresa.

Considerações finais

Apesar de ser o fruto de um simples divisão, a margem líquida pode indicar para o pequeno investidor informações valiosas sobre a empresa e seu posicionamento perante seus pares. Procure verificar a margem líquida das empresas e seu resultado no mercado e no setor. Você verá que a evolução da margem e seu desempenho econômico está entrelaçado, não sendo uma mera coincidência.

Contabilidade para Jurunas: Demonstração do Resultado do Exercício

Seguindo a sequência de esclarecimentos sobre as demonstrações contábeis necessárias para analisar uma empresa, hoje veremos a DRE.

De acordo com a lei 6404/76, que dispõe sobre sociedades por ações, no art. 187, a demonstração do resultado do exercício discriminará:

I – a receita bruta das vendas e serviços, as deduções das vendas, os abatimentos e os impostos;

II – a receita líquida das vendas e serviços, o custo das mercadorias e serviços vendidos e o lucro bruto;

III – as despesas com as vendas, as despesas financeiras, deduzidas das receitas, as despesas gerais e administrativas, e outras despesas operacionais;

IV – o lucro ou prejuízo operacional, as outras receitas e as outras despesas;

V – o resultado do exercício antes do Imposto sobre a Renda e a provisão para o imposto;

VI – as participações de debêntures, empregados, administradores e partes beneficiárias, mesmo na forma de instrumentos financeiros, e de instituições ou fundos de assistência ou previdência de empregados, que não se caracterizem como despesa;

VII – o lucro ou prejuízo líquido do exercício e o seu montante por ação do capital social.

Ainda no mesmo artigo, é determinado que na DRE serão computados:

a) as receitas e os rendimentos ganhos no período, independentemente da sua realização em moeda; e

b) os custos, despesas, encargos e perdas, pagos ou incorridos, correspondentes a essas receitas e rendimentos.

DRE
Modelo de DRE

Diferente do balanço patrimonial, a DRE tem caráter dinâmico, pois ela mostra o desempenho da empresa em determinado período. Resumidamente, é na DRE que a empresa de mostra onde ela está tirando o dinheiro para o funcionamento do negócio.

Com a DRE se consegue verificar a saúde financeira de uma empresa, ou seja, ela mostra qual lucro (ou prejuízo) a empresa terá se conseguir realizar o que está sendo planejado. Esse tipo de controle financeiro ajuda os investidores a terem uma visão mais realista sobre as decisões que estão sendo tomadas pela direção da companhia e a saber se existe viabilidade econômica para determinado nível de dívida que a organização venha a possuir, por exemplo.

Basicamente a DRE é isso:

RECEITAS (OPERACIONAIS + FINANCEIRAS) – (CUSTOS+DESPESAS) = LUCRO ou PREJUÍZO

Adiantando um pouco do que veremos na análise das demonstrações contábeis, na própria DRE conseguimos alguns indicadores que são importantes na decisão de investir ou não em determinada companhia:

  1. EBITDA: o termo EBITDA é o acrônimo em inglês para Earning Before Interests, Taxes, Depreciation and Amortization, ou seja, a sigla por si só, já ajuda bastante a explicar a função do indicador. Traduzindo para o português, obtemos o termo LAJIDA, que significa Lucro Antes dos Juros, Impostos, Depreciação e Amortização.
    EBITDA = RECEITA BRUTA – ( CUSTOS + DESPESAS)
    Este indicador possibilita que seja analisado não apenas o resultado final da organização, e sim o processo de geração de valor com um todo. Além disso possibilita a comparação direta de empresas, dado que com ele é possível avaliar o lucro referente apenas ao negócio, descontando qualquer ganho financeiro (como contratos derivativos, aluguéis ou outras rendas que a empresa possa ter gerado no período). Sendo assim, pensou em EBITDA, pensou no “core”, na operação do negócio propriamente dito.
  2. Margem líquida: corresponde ao que sobra para os acionistas em relação as receitas com vendas e prestação de serviços da empresa. Mostra qual o lucro líquido para cada unidade de venda realizada na companhia.
    Margem Líquida = (Lucro Líquido / receita líquida) x 100
    Ex: se a ML é de 20%, significa que para cada 1 real de receita líquida, a empresa consegue 20 centavos de lucro líquido. Este indicador isolado demonstra a capacidade da companhia em fazer dinheiro para reinvestir no próprio negócio ou para distribuir dividendos. O uso mais acertado para ele é na comparação de empresas de mesmo setor. Neste caso, quanto maior a margem líquida, melhor. Geralmente a ML diferencia uma empresa de outra a ponto de se observar uma vantagem competitiva na companhia com a ML maior. Porém evite amarrar valores à ML, pois há setores que possuem margens apertadas e são viáveis. Cada caso é um caso.

Dessa forma, termino o post deixando para vocês uma DRE de 2018 de uma excelente empresa, a EGIE3.

DRE

Abraços.