Lições aprendidas após a tormenta

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Aivso: post longo

Dada a calmaria apresentada após a tempestade (talvez seja um momento que antecede uma pior ainda, porém não nos cabe acreditar em futuros possíveis), compartilho aqui no blog uma excelente iniciativa levantada pelo camarada Everton Abreu de Oliveira no grupo de WhatsApp do Pracinha Investidor.

No meio militar costuma-se, após as operações, tirar ensinamentos de tudo que ocorreu, de forma a tratar os pontos fracos e fortalecer ainda mais os aspectos positivos. Não é novidade alguma para o meio empresarial, onde organizações buscam extrair vantagens competitivas para sobreviverem e crescerem no ambiente que estão inseridas.

Agora agradeço a cada um de vocês que ajudam a manter o espaço diverso e aberto a ideias, pensamentos e afastado de ideologias que mantém indivíduos imbecilizados em meras massas de manobra. Ao todo, 18 pontos foram levantados pelos integrantes do grupo. Neste post trabalharei cada um deles de forma a agregar ainda mais valor ao esforço de todos. Seguem:

  1. Aprenda opções, principalmente como ferramenta de seguro de carteira:
    Antes de mais nada, estude muito opções antes de se enveredar por este caminho. Muitas são as fontes que indicam ganho fácil com o uso de derivativos e poucas são as que levantam os riscos envolvidos. Você sabia que a fusão da Seara e a Perdigão foi resultado de um prejuízo bilionário em operações de derivativos envolvendo câmbio? Quem tiver curiosidade, seguem os links: surgimento da Brasil Foods; entenda o que ocorreu com a Sadia e Aracruz em 2008. Feita a apresentação calorosa, as opções surgem como uma alternativa de “seguro de carteira”. Basicamente você assume uma posição vendida, ou seja, ganho na possível queda. Repare que o foco aqui não é especular para ter mais uma fonte de renda com opções. O objetivo é REDUZIR perdas. Exemplo simples: seguro de carro. Você contrata o serviço e espera NUNCA utilizá-lo. Em caso de sinistro, você perde com a sua carteira e ganha com o derivativo.
    Imagine, por exemplo, que você decida comprar uma ação ABCD3 a R$ 40,00 e compre, ao mesmo tempo, uma opção de venda que lhe dê o direito de vender ABCD3 a R$ 40,00 até uma data futura pré determinada – como é o caso das opções.

    Se a ação adquirida cair abaixo dos R$ 40,00 antes do vencimento da put, você poderá exercer sua opção de venda (put) a R$ 40,00. Se a ação subir, você simplesmente opta por não exercer esta put e vida que segue. Nesse caso, você compra uma determinada ação a R$ 40,00 e uma opção de venda a R$ 2,00, você estará desembolsando um total de R$ 42,00 nesta operação – que protegerá sua posição em caso de queda no preço da ação adquirida, independentemente da proporção desta queda. Nesta situação, o investidor começará a ter lucro somente após o preço da ação superar o preço total da operação com seguro – ou seja, quando o preço da ação ultrapassar o patamar dos R$ 42,00. Por outro lado, a perda em uma eventual queda no preço da ação adquirida passará a ser limitada em R$ 2,00, que foi o custo da put adquirida.

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    Nunca se esqueça: tudo dá certo até dar errado.

    Atente-se que você sempre comprará o direito, ou seja, sua perda é limitada ao valor gasto na compra da opção, como ocorre na contratação de seguro do seu carro. Se o ano passou e não houve sinistro, você não exercerá o direito da seguradora “comprar” o seu carro;

  2. Tenha reserva de oportunidade;
  3. Reserva de emergência não é reserva de oportunidade;
  4. Reserva de emergência tem que possuir liquidez imediata e não devem oscilar conforme a renda variável. NÃO EXISTE RESERVA DE EMERGÊNCIA EM FUNDOS IMOBILIÁRIOS, eles são RENDA VARIÁVEL;
  5. Coloque essa reserva em liquidez diária, mas cuidado com o TD:
    Farei algumas considerações sobre a reserva de emergência de forma que os tópicos de 2 a 5 sejam abordados de resumidamente. Já fiz um post bem intuitivo sobre RE, caso você não tenha visto, veja aqui.
    Em relação à reserva de “oportunidade”, “liquidez”, repare que, dependendo do momento que o indivíduo começa a se posicionar, a percepção de ganho (por comprar um papel em queda) pode ser desesperadora em um intervalo de tempo curto (o mesmo papel que estava em um preço inédito permanece em queda livre). Quem acreditou na parada da queda nos 3 primeiros CB teve suas convicções fortemente abaladas, considerando o caso que o indivíduo destina um recurso somente para “oportunidades”.
    Agora imaginem o pobre diabo que resolveu utilizar a reserva de emergência para aumentar seu aporte? É insano imaginar isso pelos seguintes detalhes: a) temos uma crise sistêmica que envolve a desestruturação de alguns setores da economia; b) o momento é propício para que emergências ocorram. POR QUE DIABOS O INDIVÍDUO VAI PERDER SUA SEGURANÇA JUSTAMENTE NO MOMENTO MAIS SUSCETÍVEL A EMERGÊNCIAS? É insano, pois hoje já temos muitos relatos envolvendo demissões.
    E sobre fazer a RE render? Uma youtuber famosinha que só sabe falar de renda fixa sugeriu há pouco tempo colocar a RE em Fundos Imobiliários. Sim, pois dinheiro em poupança, em tesouro selic é perda garantida. Pois bem, acredito que alguns filhos da alta devem ter comprado a ideia, pois não tinha como dar errado. O resto da história vocês já sabem. Para resumir: FII é renda variável.

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    Estratégia árabe para proteger o patrimônio

    Se você ainda pensa em fazer render a RE (sofre diariamente com uma voz na cabeça, coitado, é esquizofrênico) e pensa em deixar no tesouro direto…bom, se for fazer isso, que seja no tesouro selic. Pois se você colocar em qualquer outro título, saiba que eles sofrem marcação a mercado. No período da crise, tivemos uma alta na taxa de juros dos títulos. Quando isso ocorre, o valor dos títulos cai. Dessa forma, o montante que você investiu sofre marcação a mercado. Quem precisou sacar tesouro direto nesses dias de alta nos juros amargou algum prejuízo;

  6. Fundos descorrelacionados não servem para hedge em grandes quedas;
  7. Criptomoedas não servem para nada, nem para HEDGE, a não ser que você atue no mercado negro:
    Não vou me estender no assunto. Imagens falam mais que palavras. Seguem:

    BTC-USD 14 FEV
    Gráfico diário BTC/USD. Reparem na cotação de 14/fev e na de 27/03
    IBOV 14 FEV
    Gráfico diário do índice BOVESPA. Reparem na cotação de 14/fev e na de 27/03.

    Resumindo: CRIPTOMOEDA NÃO É HEDGE DE PORRA NENHUMA!

    Sem título
    Gráfico diário do ouro/dólar. Reparem na cotação de 14/fev e na de 27/03.

    Peguei o ouro como base pois esse comportamento me deixou preocupado no meio da crise. O ouro sempre foi considerado um hedge de risco sistêmico e a prática nos mostrou outra coisa. Atualmente ele já até ultrapassou o nível que estipulamos como base, mas reparem como o movimento de pânico é devastador.
    Uma das hipóteses que acredito para esse movimento do ouro é a busca por liquidez pelos integrantes do mercado financeiro em meio à alta expectativa de default. Só para vocês entenderem a gravidade: índice do medo (VIX) atinge maior patamar desde a crise financeira de 2008.
    Conclusão: o movimento de pânico é avassalador;

  8. Nas grandes quedas stops não servem, pois são pulados na abertura do pregão;
  9. Você nunca vai acertar o fundo;
  10. Dividir o dinheiro do aporte em parcelas em grandes períodos de queda, conforme a realidade de cada um:
    Aqui abordarei os tópicos de 8 a 10. Se tiver alguém que opera com travas, saiba que nesses períodos de pânico elas podem cair por terra. Exemplo: o mercado fechou na sexta-feira com uma expectiva de escalada da crise. Passamos o final de semana e tudo se confirmou. A pressão na queda é tão forte que o mercado já abre em “gap”, ou seja, um preço-alvo definido por você pode ser ultrapassado em minutos e daí por diante o gerenciamento de risco que você definiu explode. Conselho: se for operar, faça ao longo do dia.
    A filosofia de buy & hold exige do indivíduo uma certa insensibilidade em relação ao que ocorre no mercado. Entretanto, sabemos que isso é impossível. Dói muito ver o patrimônio cair 20% ao longo de uma semana. E machuca ainda mais achar que houve ganho aportando em um preço que era considerado baixo (exemplo, BBDC3 a 25 reais em 10 de março) e acompanhar quedas sucessivas até o fundo (BBDC3 chegou a valores abaixo de 15 reais).
    Nesse caso, temos duas dores. Uma que é a própria perda do patrimônio; a outra é ver o aporte desaparecer. Dado que você nunca acertará o fundo, nesse cenário tortuoso, realizei o aporte de março da seguinte forma: a) no início do mês aportei cerca de 30% do valor total; b) após alguns CB, deixei o dinheiro parado na corretora (até porque vivia travando – Clear); c) depois de um período, voltei a investir diariamente 10% do aporte até ele terminar; d) o aporte foi terminar só no dia 23. Obviamente, isso só foi possível dada a zeragem de taxas ofertada pela Clear.

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    Certeza da Vitória!

    Confesso que muito provavelmente isso não fará diferença no longo prazo, embora no curto prazo essa tática tenha me deixado mais à vontade assistindo o inferno na RV.

  11. Não mude a sua estratégia conforme o mercado se altera:
    O indivíduo passa quatro meses estudando balanços, entendo a filosofia de investimento para o longo prazo, estabelece metas, aloca os ativos, define aportes, tá tudo ok. Aí surge a peste chinesa:

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    Até aí tudo bem.

    O mesmo indivíduo fica nervoso com a queda, mas mantém o foco, pois sabe que no longo prazo terá retorno enquanto estiver com empresas valorosas.
    Aí vem a guerra do petróleo:

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    Aí não tá tudo bem não =( referência às fotos aqui

    Nesse ponto o indivíduo já aportou e fica aflito, pois já se foram cinco circuit breakers. Temos vozes insanas na cabeça dele (esqueceu do tarja preta mais uma vez) exigindo uma saída rápida. Daqui temos três cenários: a) o pobre diabo controla a voz e fixa os estudos na filosofia de buy and hold e continua no barco, mesmo parecendo que ele irá afundar; b) o retardado não aguenta mais e vende, pois a voz já sugere a ele contar quantos segundos de queda livre tem do 15º andar do prédio ao chão ou; c) a pessoa começa a dar razão à voz e depois de 4 horas de conversa, resolve vender a renda fixa e comprar renda variável. E esta saída é a pior de todas, porque o abençoado vendeu TD no prejuízo e comprou RV que continuou acumulando quedas. Haja sistema vascular.
    Povo, entenda o seguinte: b&h só dá certo no longo prazo porque você acerta “em média”. Em todos os cenários você faz a mesma coisa. Compra na alta, na baixa e na lateralização. Porque diabos você irá mudar uma estratégia que só vai mostrar efetividade em no mínimo cinco anos? Se você alterou de alguma forma a sua estratégia neste período, saiba que muito provavelmente você está exposto a um risco maior.

  12. Nas quedas generalizadas, o preço maior pago em empresas “caras”, ou seja, as que possuem maior margem de segurança, se mostra como uma perda menor no próprio patrimônio;
  13. Preço importa;
  14. Em quedas generalizadas, melhor focar em empresas sólidas e com excelente histórico de pagamento de dividendos:
    Outro ponto sensível. Quem está no b&h há mais de 3 anos já possui alguma referência de preços aos ativos da própria carteira. Ver empresas sólidas como ITUB, ITSA, BBDC, EGIE, WEGE, LREN, ABEV, entre outras desabarem nos deixa muito sensíveis a aportar recursos nelas. Nessa situação eu consigo entender o peso da referência antiga de preços aos praticados atualmente.
    Se você considerar a queda do IBOV com as empresas citadas acima, verá que elas não acompanharam tanto o índice na descida. É nessas situações que você percebe a margem de segurança dessas empresas oferecida em contrapartida a dividendos reduzidos anteriormente.
    No cenário atual de calamidade, caso você invista em RV, sugiro empresas sólidas e boas pagadoras de dividendos. Digo isso pois: a) se o mundo continuar acabando, ela suportará mais do que as demais empresas; b) se o mercado estagnar, ela entrará numa nova tendência que muito provavelmente reduzirá os dividendos pagos, considerando os exercícios anteriores, e; c) se houve retomada da economia, a ação vai explodir;
  15. Acordar às 5h da manhã não serve pra nada:
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
  16. Ficar olhando o home broker em dia de circuit breaker só aumenta as chances de infarto;
  17. Só abrir o home broker se tiver recursos para aportar:
    Posso parecer senhor da razão ditando “n” regras, mas sou tão humano como você (sem trocadilho). Eu, entendendo minhas limitações, sempre busquei me afastar e ignorar as notícias (embora alguns desgraçados sempre as postavam no grupo do pracinha) e variações dos índices.

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    PERTURBAÇÃO DO CARALHO!

    Uma das formas de reduzir riscos é mitigar probabilidades. Exemplo: você é alcoólatra. Está limpo há 3 anos. Você muito sabe da luta que foi chegar até essa paz de espírito. Hoje você recebe um convite de um evento “open bar”. De todas as escolhas possíveis de bebidas no evento, você só terá uma, que é água. Será que é o caso você se colocar neste ambiente de risco? Onde está a chance maior de você ter uma recaída? Em casa, sem nenhuma bebida alcoólica, ou na festa em questão?
    Procure se blindar. Se não for aportar, se não tiver recursos na corretora, fique longe do home broker. Ah, e cuidado com os parapeitos;

  18. Evite operar notícias:
    Repare, operar é diferente de acompanhar. Uma coisa é você saber que há uma pandemia, que a peste chinesa avança na Itália, que é um tema preocupante. Você também sabe que o Brasil possui um sistema público de saúde deficitário e que se o mal chinês escalar aqui poderemos até ter um caos social. Sendo assim, você buscará medidas para ter uma resposta caso tudo dê errado; outra coisa totalmente distinta é você absorver a notícia, pesquisar sobre o assunto o tempo inteiro, não se ater às fontes do que está assimilando e repetir esse processo até que você queira que o mundo acabe.

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    Histeria: a gente vê por aqui.

    Sim, você quer isso. Desde o início as notícias são pessimistas e os problemas só escalam. Você enxerga uma tendência muito negativa nas informações e internaliza isso. Repetidamente, fala sobre o assunto e confirma suas convicções (com outros desesperados como você). O que falta para a conta fechar? O mundo acabar.
    Até que isso ocorra, tá você aí operando pessimista na negatividade. Acorde, meu amigo. Não se afogue nesse mar de informações.

Então é isso. Mais uma vez agradeço a todos os integrantes do grupo e também a você, leitor. São vocês a razão desse espaço existir. Peço perdão pelo excesso de imagens, mas a intenção foi de deixar cômica a postagem, no sentido de que eu sei que você, como eu (não leve na maldade) muito provavelmente ficou menos rico nesse último mês. Melhor rir do que chorar.

Sigamos em frente!

“As lições aprendidas na dor, jamais serão esquecidas”

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